quarta-feira, 24 de maio de 2017

Diário de Bordo - Aula 11 - 23/05/2017

Nossa aula começou com alguns considerações da Professora sobre a BNCC de dois artigos lidos por ela: há muito tempo tem a necessidade de uma base nacional curricular e base comum e base diversificada já estavam na LDB 5692/71. Nos anos 70 e 80 houve um movimento em favor da formação de professores e discussão de experiências para montar a base nacional curricular, portanto Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) eram referencia. Hoje, o currículo é organizado em áreas de conhecimentos e as escolas tem autonomia para não dividir em disciplinas. É possível perceber MEC, Governo e Instituições Privadas juntos para a elaboração de Bases curriculares visando a manutenção do capitalismo; currículo é na verdade uma disputa de poder e a base nacional comum curricular norteada pelas avaliações internacionais, desconsiderando as especificidades regionais, formando uma identidade nacional (com definições de conhecimento), ou seja, a BNCC é um retrocesso para o tradicional, engessando o currículo e tirando a autonomia do professor. Lembrando que para a elaboração da nova base os professores não foram ouvidos e o conhecimento é visto como uma mercadoria. Na verdade, antes de mudar essa base era preciso investir em formação de professor, mas o que parece é que as universidades estão caladas.

Lemos um texto de Rubem Alves com o título Gaiola e Asas:

Os pensamentos chegam-me de um modo inesperado, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que, frequentemente, também Lichtenberg, William Blake e Nietzsche eram atacados por eles. Digo atacados porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Os aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, este aforismo atacou-me: Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controlo. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados têm sempre um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri, conversando com professores em escolas. O que eles contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E eles, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e os domadores com os seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que os fecha com os tigres. Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes? Ou serão as escolas que são violentas?
As escolas serão gaiolas? Vão falar-me da necessidade das escolas dizendo que os adolescentes precisam de ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: as nossas escolas estão a dar uma boa educação? O que é uma boa educação? O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ficam com uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Sabe o que é um “dígrafo”? E conhece os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual é a utilidade da palavra “mesóclise”? Pobres professores, também engaiolados… São obrigados a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é um hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata a sua experiência com as escolas: Fui forçado (!) a estudar o que os professores decidiam que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira.
 O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que a inteligência era a ferramenta e o brinquedo do corpo, Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender ferramentas, aprender brinquedos. As ferramentas são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. Os brinquedos são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.
Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. As ferramentas permitem-me voar pelos caminhos do mundo. Os brinquedos permitem-me voar pelos caminhos da alma. Quem está a aprender ferramentas e brinquedos está a aprender liberdade, não fica violento. Fica alegre, ao ver as asas crescer… Assim todo o professor, ao ensinar, deveria perguntar-se: Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo? Se não for, é melhor pôr de parte. As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se as escolas são gaiolas ou asas.
Mas eu sei que há professores que amam o voo dos seus alunos.
Há esperança…
Refletindo a partir desse texto (forte e verdadeiro) podemos dizer que currículos que determinam são gaiolas e mesmo que saia da gaiola pode não voar mais. Isso, pois currículo é formação de identidade, controle social e tem haver com um projeto de nação. Os professores nesse caso são instrumentos de poder e os cursos de formação são gaiolas.
Começando as análises do BNCC, a primeira questão sobre o que a base sustenta o grupo foi unânime nas resposta, completando que parece que não existe desigualdades, problemas. A base nega um currículo unilateral e a formação de professores precisa acontecer de acordo com a BNCC. Portanto, a base é ideológica, hegemônica, engessada, que engaiola, com disciplinas e conhecimento absoluto, não considerando o coletivo e negando uma sociedade dividida em classes. Foi possível perceber nas falas dos colegas que os princípios da introdução aparecem muito pouco, alguns não aparecem nada, com menos conteúdos; contraditória; confusa; sem criticidade; generalizada; sem interdisciplinariedade; sem contextualização; hierárquica (português e matemática); e fora da realidade e maturidade dos alunos (no caso do Inglês).
Assistimos um vídeo que nosso colega Carlos nos mostrou sobre a educação atual, ainda tradicional e com a reflexão do nosso colega Ney percebemos que todos nós mudamos como pessoa e estamos mais críticos com tudo que estamos aprendendo nesses dois meses de aula.
Que possamos como professores dar asas aos nossos alunos!

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